
A poliomielite é uma doença infecto-contagiosa aguda, causada por um vírus que vive no intestino, denominado Poliovírus. Embora ocorra com maior frequência em crianças menores de quatro anos, também pode ocorrer em adultos. O período de incubação da doença varia de dois a trinta dias sendo, em geral, de sete a doze dias. A maior parte das infecções apresenta poucos sintomas (forma subclínica) ou nenhum e estes são parecidos com os de outras doenças virais ou semelhantes às infecções respiratórias como gripe - febre e dor de garganta - ou infecções gastrintestinais como náusea, vômito, constipação (prisão de ventre), dor abdominal e, raramente, diarréia (Fiocruz, 2021).
Cerca de 1% dos infectados pelo vírus pode desenvolver a forma paralítica da doença, que pode causar sequelas permanentes, insuficiência respiratória e, em alguns casos, levar à morte. Em geral, a paralisia se manifesta nos membros inferiores de forma assimétrica, ou seja, ocorre apenas em um dos membros. As principais características são a perda da força muscular e dos reflexos, com manutenção da sensibilidade no membro atingido (Fiocruz, 2021).
De acordo com as últimas informações divulgadas pela Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) ao longo do segundo semestre de 2021, o Brasil é um dos países das Américas que está de volta a uma posição relacionada a alto risco de ocorrência da poliomielite, além do Brasil, estão mais alguns países, sendo eles: Bolívia, Equador, Guatemala, Haiti, Paraguai, Suriname e Venezuela. A Opas explica que a causa do retorno da doença após exatos 30 anos sem nenhum caso, é a baixa taxa de vacinação nesses locais, o que representa um enorme perigo para todo o continente.
"Esses países, que representam 32% da população com menos de um ano de idade das Américas, têm sustentado uma baixa cobertura de vacinação e sistemas de vigilância fracos, o que representa uma ameaça de emergência do vírus e a subsequente circulação dele", alerta a Opas. O que mais preocupa em relação ao Brasil é que o mesmo possui um dos programas de imunização contra a pólio mais bem-sucedidos da região, e mesmo assim foi parar nessa lista. Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, apontam que a pandemia de covid-19, a falta de campanhas de comunicação, uma desconfiança generalizada nas autoridades e a sensação de que essa doença não preocupa mais.
A infectologista Raquel Stucchi, professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), entende que a vacinação contra a pólio é vítima de seu próprio sucesso. "As vacinas são tão boas que essa doença desapareceu do país. Atualmente, meus alunos só veem casos de pólio nos livros", conta.
O último paciente com poliomielite no Brasil foi identificado em 1989. Em 1994, nosso país recebeu da Opas o certificado de eliminação da transmissão do vírus causador dessa enfermidade. A médica, que também integra a Sociedade Brasileira de Infectologia, explica que esse vírus é transmitido de pessoa para pessoa ou através da contaminação das redes de esgoto e água. "O agente infeccioso, conhecido como poliovírus, fica no intestino e é eliminado pelas fezes. A partir daí, pode contaminar outras pessoas", ensina.
A poliomielite é conhecida há milhares de anos, e se tornou um enorme problema de saúde pública entre os séculos 19 e 20, ocasionando surtos e epidemias espalhados por todo o mundo. Tudo isso começou a mudar assim que foram criadas as duas vacinas que são utilizadas até hoje, em meados das décadas de 50 e 60, a primeira é injetável criada a partir do vírus inativado, e a segunda é em gotas e traz o vírus atenuado.
No Brasil é utilizada a vacina em gotas, iniciando sua em campanha nacional oficialmente em 1980, antes disso foram contabilizados mais de 26 mil casos de poliomielite, de acordo com os dados do Ministério da Saúde. Nosso país foi pioneiro em inúmeros aspectos e lançou algumas estratégias tais como a criação dos famosos "dias D" da campanha, que contavam com ampla divulgação nos meios de comunicação, e a criação de personagens com forte apelo popular, como foi o caso do Zé Gotinha.
Mas infelizmente nos últimos anos a taxa de vacinação tem deixado a desejar, de acordo com o Ministério da Saúde, desde o ano de 2015 as taxas vêm diminuindo, há seis anos, 98,2% do público-alvo recebeu as doses. Em 2016, essa taxa caiu para 84,4% e se manteve nesse patamar até 2019. Ainda de acordo com esses dados, no ano de 2020 houve uma nova queda nos registros, de acordo com dados preliminares apenas 75,9% receberam as doses contra o vírus causador da paralisia infantil. Em outras palavras, aproximadamente 1 em cada 4 crianças brasileiras não está recebendo a vacinação, ou seja, não está suficientemente resguardada contra a poliomielite.
"Se considerarmos o número de nascidos vivos no país, estamos falando de praticamente um milhão de indivíduos desprotegidos", calcula o pediatra Juarez Cunha, presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm). É justamente esse contingente de não-vacinados que alarmou as autoridades e colocou o Brasil na lista dos países com "alto risco" para a reintrodução da pólio nas Américas.
"Toda essa situação nos deixa bastante preocupados. Estamos falando de uma doença que paralisa crianças", chama a atenção a infectologista e pediatra Luiza Helena Falleiros Arlant, coordenadora da Câmara Técnica de Imunizações (Pólio) do Ministério da Saúde. Ou seja: no atual cenário, com cerca de 1 milhão de crianças suscetíveis, há o perigo iminente de uma pessoa com pólio vir de fora e criar cadeias de transmissão internas, algo que não é visto por aqui há mais de três décadas.
Texto por Paula Eduarda Rocha | Ipedss Science
Fontes:
