
Não é de hoje que sabemos que a nossa alimentação influencia a nossa saúde, e os primeiros relatos em relação a isso remontam à Grécia Antiga. Hipócrates (um dos primeiros médicos a afirmar que as doenças têm causas naturais e não sobrenaturais) observou que muitas enfermidades são associadas à gula, essas mesmas ideias foram adotadas e adaptadas ao longo dos séculos, até que, no final do século 15, Alvise Cornaro, um aristocrata com saúde frágil de uma pequena aldeia perto de Veneza, na Itália, mudou por completo o conhecimento aceito na época.
Cornaro passou a moderar a sua alimentação, aos 40 anos de idade, passando a comer apenas 350 g de alimentos por dia, ou cerca de mil calorias, segundo estimativas recentes. Restringindo a quantidade, mas não a variedade, Cornaro afirmava ter atingido "saúde perfeita" até sua morte, mais de 40 anos depois. Ele alterava sua data de nascimento à medida que envelhecia, afirmando que havia chegado aos 98 anos, mas acredita-se que ele tenha morrido com cerca de 84 anos de idade - ainda assim, um feito impressionante no século 16, quando uma pessoa com 50 ou 60 anos já era considerada idosa.
Em 1591, seu neto publicou seu livro póstumo em três volumes intitulado "Tratado da Vida Sóbria", que apresentou a restrição alimentar para o público e redefiniu o próprio envelhecimento. Cornaro afirmava que, com um estímulo adicional de boa saúde no final da vida, os idosos, com total posse das suas capacidades mentais, poderiam fazer bom uso de suas décadas de conhecimento acumulado. Com sua dieta, a beleza estava na velhice, não na juventude.
Cornaro foi uma pessoa fascinante, mas suas descobertas não devem ser consideradas irrefutáveis por nenhum ramo da ciência. Mesmo que seu relato seja verdadeiro e ele não tenha sofrido problemas de saúde por quase meio século, o que parece improvável, ele foi um estudo de caso de uma pessoa, que não representa os seres humanos como um todo. Um estudo fundamental em 1935 com ratos brancos demonstrou que a restrição alimentar de 30 a 50% amplia o período de vida, retardando a morte por doenças e distúrbios relativos à idade, mas é claro que o que funciona para ratos ou outros animais de laboratório poderá não funcionar para seres humanos.
Testes de longo prazo, que acompanhem seres humanos do início da idade adulta até a morte, são raros. "Não considero estudos de longevidade em seres humanos como programas de pesquisa financeiramente viáveis", afirma Mattison, do Instituto Nacional do Envelhecimento (NIA, na sigla em inglês), nos Estados Unidos. "Mesmo se você começar com pessoas com 40 ou 50 anos de idade, ainda estará possivelmente considerando mais 40 ou 50 anos [de estudo]. "E ela também acrescenta que é quase impossível evitar que fatores externos (prática de exercícios, fumo, tratamentos médicos e bem-estar mental) influenciam os resultados finais do teste, em nossa espécie social e culturalmente complexa.
No final dos anos 1980, foram iniciados testes de envelhecimento com macacos Rhesus, que não apenas compartilham 93% do nosso DNA, mas também envelhecem da mesma forma que nós. Lentamente, após a meia-idade (cerca de 15 anos, nos macacos Rhesus), as costas começam a curvar-se, a pele e os músculos começam a cair e seus pelos, quando ainda crescem, mudam de coloração, de marrom para cinza. As similaridades vão ainda mais longe, como ocorrência de doenças muito similares, o que segundo Rozalyn Anderson, gerontologista da Universidade de Wisconsin, os transforma em ótimos exemplares para estudo.
Os resultados dos estudos indicaram que a restrição alimentar, com cálculo de calorias a serem ingeridas ocasionou em melhoras na qualidade e tempo de vida desses macacos, ou seja, comer menos certamente parece ajudar os macacos, mas a restrição de calorias é muito mais difícil para as pessoas no mundo real.
Nosso acesso a refeições regulares com alto teor de calorias, por exemplo, nunca foi mais simples; com serviços como o iFood e o Uber Eats, não é mais necessário andar até o restaurante. Além disso, ganhar peso simplesmente é mais natural para algumas pessoas. "Existe um enorme componente genético em tudo isso e permanecer magro é muito mais difícil para algumas pessoas que para outras", ressalta Anderson, gerontologista da Universidade de Wisconsin. "Todos nós conhecemos alguém que pode comer um bolo inteiro e nada acontece - ele simplesmente não engorda - enquanto outra pessoa apenas caminha ao lado de uma mesa onde há um bolo e já precisa comprar uma calça maior."
É verdade que alguns dos benefícios podem advir da perda de peso. Os exames iniciais do estudo Calerie haviam incluído pessoas obesas e também com índice de massa corporal (IMC) saudável de 25 ou menos e o emagrecimento certamente teria aumentado o bem-estar dos participantes com peso mais alto. "O que ficou bastante claro há muito tempo é que ser obeso ou mesmo estar apenas acima do peso é ruim para você", segundo Roberts. Ela acrescenta que as doenças e os distúrbios que antigamente se acreditava serem associados à idade agora estão aparecendo na população obesa. Mas os resultados mais recentes indicam que benefícios significativos para a saúde podem ser obtidos em corpos já saudáveis, pessoas que não são obesas, nem estão abaixo do peso. Ou seja, aquelas com IMC de 18,5 a 25. Apesar desses resultados, evidências de testes adicionais serão necessárias antes de aconselhar alguém que já tenha IMC saudável que reduza sua ingestão de calorias - e aconselha-se a qualquer pessoa que deseje mudar sua alimentação a consultar antes um profissional médico.
Mesmo com essas descobertas promissoras, “isso [o estudo Calerie] é o primeiro estudo da sua espécie e acho que nenhum de nós teria confiança suficiente para dizer ‘está bem, vamos recomendar isso para todas as pessoas do mundo’’’, afirma Roberts. "Mas é uma perspectiva realmente fascinante. Acho que retardar a progressão de doenças crônicas é algo que todos nós podemos apoiar e que pode nos deixar empolgados, pois ninguém quer passar a vida com uma dessas doenças."
Texto por Paula Eduarda Rocha | Ipedss Science
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