As vacinas para a Covid-19 chegaram trazendo inúmeras discussões, uma delas era sobre a liberação das patentes para que as vacinas pudessem ser produzidas em maior quantidade e chegassem aos países mais pobres. Porém a maioria das vacinas foram produzidas por empresas farmacêuticas de países poderosos que protegiam a propriedade intelectual das vacinas que desenvolviam, dificultando assim a liberação da sua patente.

E em meio a isso surgiu o desenvolvimento da Corbevax, a primeira vacina desenvolvida sem patente pelos cientistas Bottazzi e Peter Hotez, que no final de dezembro de 2021 recebeu autorização para uso emergencial na Índia. Segundo Bottazzi, todas as informações necessárias para fabricá-la estão disponíveis sem fins lucrativos. "Qualquer um pode replicá-la", diz Bottazzi à BBC News Mundo, serviço de notícias em espanhol da BBC. "Qualquer um pode trabalhar conosco."
Atualmente, Bottazzi e sua equipe estão em negociação para produzir a vacina em países como Indonésia, Bangladesh e Botsuana. E, por ser hondurenha, ela tem um interesse especial de que o imunizante possa ser produzido na América Central e distribuído em toda a região. Em conversa com a BBC News Mundo, Bottazzi explica por que considera a Corbevax "a primeira vacina contra covid concebida para a saúde global", e como espera que a mesma mude os paradigmas de produção e distribuição de vacinas.
A vacina desenvolvida pelos cientistas utiliza a tecnologia de proteína recombinante, esta tecnologia já se mostra eficaz há décadas em vacinas como a da hepatite B, por exemplo. Seu funcionamento é baseado no uso de proteínas do vírus que sejam suficientes para despertar uma resposta imune, mas não a doença. Além disso, requer um processo de produção mais simples e barato do que outros tipos de vacinas, como aquelas com tecnologia de RNA mensageiro produzidas pela Pfizer ou Moderna.
Bottazzi e Hotez vinham trabalhando em uma vacina desde o início dos anos 2000, quando surgiram as epidemias de Mers (síndrome respiratória do Oriente Médio) e Sars (Síndrome Respiratória Aguda Grave), que também são coronavírus. Como estes vírus não levaram a uma pandemia, se perdeu o interesse por essas vacinas, mas com a chegada do SARS-CoV-2, vírus causador da covid-19, Bottazzi e Hotez retomaram seus trabalhos, aproveitando os avanços que já haviam feito.
O Hospital Baylor College, onde Bottazzi e Hotez trabalham, fez uma parceria com o laboratório indiano Biological E. para compartilhar informações e realizar os estudos necessários para verificar a segurança e eficácia da vacina. De acordo com um estudo de Fase 3, realizado com 3 mil voluntários, a Corbevax é 90% eficaz na prevenção da doença causada pela versão original do SARS-CoV-2 e 80% eficaz para a variante delta. Os dados destes estudos ainda não foram publicados, por isso alguns especialistas preferem ser cautelosos.
Em relação à variante ômicron, Bottazzi diz que está fazendo testes e aguardando a validação dos resultados. A pesquisadora afirma também que os dados dos estudos ainda não foram publicados porque leva tempo para processá-los e disponibilizá-los ao público, e tanto a equipe dela quanto a da Biological E. são pequenas em relação às grandes multinacionais. Ao mesmo tempo, Bottazzi garante que "não haverá surpresas".
O fato é que o governo da Índia já encomendou 300 milhões de vacinas da Biological E. Além disso, Bottazzi afirma que a ideia é que a Corbevax entre em março no mecanismo Covax, por meio do qual a Organização Mundial da Saúde (OMS) busca uma distribuição igualitária de vacinas entre os países menos desenvolvidos.
Acesso global não é apenas enviar a vacina para outra parte do mundo, acesso global é que haja acesso igualitário, que qualquer fabricante possa replicar a fórmula, que qualquer pessoa tenha acesso à vacina", acrescenta. Segundo ela, este modelo livre de patentes ressalta o papel das entidades acadêmicas e serve para chamar a atenção dos governos para que apoiem mais áreas de pesquisa. "É preciso mudar os incentivos, não pode ser só econômico", diz Bottazzi. "A vacina não é um produto para fazer dinheiro."
Texto por Paula Eduarda Rocha | Ipedss Science
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