
A esquistossomose é considerada uma das Doenças Tropicais Negligenciadas, ela é provocada por um parasita, o Schistosoma mansoni, e transmitida pelo caramujo Biomphalaria glabrata, que é penetrado pelas larvas do parasita (miracídios), originadas dos ovos liberados nas fezes de pessoas infectadas. Essas larvas se desenvolvem, transformam-se em cercárias, saem do caramujo, chegam ao ser humano ao entrarem em contato com a pele, alcançam a forma adulta e provocam a doença, que também é comumente conhecida pelas denominações xistose, barriga d’água ou doença dos caramujos.

A doença é assintomática na fase inicial, porém pode evoluir e causar graves problemas à saúde, inclusive crônicos, podendo levar a internação ou até mesmo à morte. Na fase aguda da doença, o infectado pode apresentar sintomas, como por exemplo, febre, dor de cabeça, calafrios, suores, fraquezas, falta de apetite, dor muscular, tosse e diarreia. Já na fase crônica, o enfermo pode apresentar tonturas, sensação de plenitude gástrica, prurido (coceira) anal, palpitações, impotência, emagrecimento, endurecimento e aumento do fígado, sendo que nesses casos mais graves, o estado geral do paciente piora bastante apresentando emagrecimento, fraqueza acentuada e aumento do abdômen.
Em um recente estudo desenvolvido pelo instituto Butantan em parceria com a USP, e publicado na revista Nature foi descoberto que macacos-rhesus possuem naturalmente uma forte resposta imunológica contra a esquistossomose, a pesquisa mostrou também que o organismo destes animais é capaz de agir ocasionando autocura na primeira infecção e atuando de forma ainda mais rápida em uma possível reinfecção.
“A esquistossomose ainda causa milhares de mortes atualmente no Brasil, e estima-se que 1,5 milhão de pessoas estão em áreas de risco no País. Mais de 200 mil pessoas morrem anualmente de esquistossomose em todo o mundo”, afirma ao Jornal da USP Sergio Verjovski-Almeida, pesquisador do Instituto Butantan e professor do Instituto de Química (IQ) da USP, supervisor do trabalho. “Não existe nenhuma vacina disponível para combater a doença no Brasil ou no mundo. Existe apenas um tratamento disponível, o medicamento Praziquantel, que é ineficaz contra as formas imaturas dos vermes, não combate a reinfecção e, para o qual, já há relatos de tolerância dos parasitas”, acrescenta Murilo Sena Amaral, pesquisador do Instituto Butantan e primeiro autor do artigo.
De acordo com Verjovski-Almeida, desde o ano 2000, trabalhos científicos já apontavam a capacidade dos macacos-rhesus de combater naturalmente uma primeira infecção com o Schistosoma mansoni. “No entanto, não era compreendido se os macacos eram capazes de desenvolver uma resposta imune capaz de curá-los mais rapidamente após uma segunda infecção”, observa Verjovski-Almeida. “A pesquisa avaliou se macacos infectados são capazes de desenvolver uma memória imune duradoura, de modo que esse conhecimento sirva como base para o desenvolvimento de uma possível vacina”.
Segundo Verjovski-Almeida, a descoberta de que macacos-rhesus são capazes de desenvolver uma memória imune duradoura, de forma a responder mais rápido após uma segunda infecção, e de que há anticorpos gerados contra o parasita que encaminham a cura, indicam que é possível utilizar os alvos destes anticorpos, ou seja, proteínas do parasita, no desenvolvimento de vacinas nos próximos anos. “As próximas fases do estudo serão a identificação das proteínas do parasita que são alvejadas pelos anticorpos dos macacos e os testes destas proteínas como novos candidatos vacinais em camundongos”, planeja.
E desta maneira será possível o desenvolvimento de uma vacina eficaz contra a doença, trazendo inúmeros benefícios para as populações atingidas com a doença, sobretudo as que se encontram em vulnerabilidade social, pois são as mais afetadas por esse tipo de doença.
Texto por Paula Eduarda Rocha | Ipedss Science
FONTES:
- Nature
