Pesquisadores da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, desenvolveram uma técnica que poderá ter grandes implicações para pacientes renais, isso porque ela escapa da questão de compatibilidade, uma vez que uma determinada pessoa só pode receber um órgão com o tipo sanguíneo compatível ao seu. Por exemplo, um paciente com o tipo sanguíneo A não pode receber um órgão de um doador com tipagem sanguínea B. No entanto, durante um experimento, os pesquisadores conseguiram transformar três rins de doadores falecidos do tipo sanguíneo B em O.

Para que fique mais compreensivo é importante entender que o tipo sanguíneo O não possui aglutinogênios nas hemácias, mas o tipo A e B sim. Os aglutinogênios são substâncias antigênicas que estimulam a formação de uma aglutinina específica que atua como anticorpo que pode provocar a aglutinação de células quando identificadas como antígeno.

Para mudar o tipo sanguíneo dos rins, os pesquisadores utilizaram uma máquina de perfusão normotérmica, um dispositivo que é conectado a um rim humano para passar sangue oxigenado através do órgão a fim de preservá-lo para uso futuro. A máquina possibilitou a liberação de sangue infundido com enzimas que agem como “tesouras moleculares”, removendo os marcadores de tipo sanguíneos B que revestem os vasos sanguíneos do rim, resultando na conversão do tipo sanguíneo para O.

“Nossa confiança foi realmente aumentada depois que aplicamos a enzima em um pedaço de tecido renal humano e vimos muito rapidamente que os antígenos foram removidos. Depois disso, sabíamos que o processo era viável e só tivemos que ampliar o projeto para aplicar a enzima em rins humanos de tamanho normal. Tomando rins humanos do tipo B e bombeando a enzima através do órgão usando nossa máquina de perfusão normotérmica, vimos em apenas algumas horas que havíamos convertido um rim do tipo B em um tipo O”, afirmou a uma dos autores do estudo, a estudante de doutorado Serena MacMillan.

A descoberta pode ser impactante principalmente para pessoas afrodescendentes e de grupos minoritários, que muitas vezes esperam por um tempo maior por um transplante em relação a pacientes brancos. Isso ocorre porque eles são mais propensos a pertencer ao grupo sanguíneo do tipo B, que é menos frequente. As taxas de doação de órgãos entre essas populações também são menores. Em 2020/21, pouco mais de 9% do total de doações de órgãos vieram de doadores de etnias negras e minoritárias no Reino Unido, enquanto que pessoas dessas comunidades representam um terço da lista de espera para receber um novo rim.

O próximo passo é verificar como os rins do tipo O recém-alterados reagirão ao tipo sanguíneo usual de um paciente. A máquina de perfusão permite que os pesquisadores testem antes de transplantá-los ao introduzir diferentes tipos sanguíneos nos rins e monitorando a reação dos mesmos, em uma espécie de simulação do processo de transplante. Em seguida, a equipe analisará como a abordagem poderá ser usada em um ambiente Clínico.

Texto por Dalcio Neto| Ipedss Science

Fontes:

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