
As fortes chuvas no Brasil trouxeram consigo inúmeras constatações, tais como a existência e riscos das mudanças climáticas, falta de planejamento urbano e pouco investimento público para prevenir desastres. O que mais preocupa é a questão de que esses desastres não trazem só consequências imediatas, como óbitos, ferimentos e destruição de construções, em médio e longo prazo, episódios como esse também podem gerar impactos graves à saúde.
"Essas enchentes e deslizamentos de grandes áreas têm capacidade de destruição do sistema de saneamento - caso ele exista na região", aponta Carmen Fróes, professora da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e pesquisadora do tema de exposição a poluentes ambientais. Com isso, a população pode ter seu sistema de água contaminado por escombros e esgoto, ambos contando com a possível presença de agentes biológicos nocivos.
"Um risco bastante comum é ter o aumento dos casos da doença chamada leptospirose, causada por um microrganismo presente na urina do rato, e que pode se espalhar em situações como a tragédia que aconteceu em Petrópolis", acrescenta a especialista.
Além do risco de ingestão direta de água contaminada pelo extravasamento do sistema de saneamento, há ainda a possibilidade de que, ao se deslocar de um lugar para outro, a pessoa que tenha qualquer tipo de ferida não cicatrizada, por menor que seja, se contamine por ter contato com a água ou com a lama. Alguns sintomas da leptospirose são febre alta, dor de cabeça, sangramento, olhos vermelhos, vômitos, dor muscular e calafrios.
Alguns dias depois, com o escoamento da água, começam a se formar poças. "O cenário favorece a proliferação de mosquitos como o Aedes aegypti e Aedes albopictus, que transmitem dengue e chikungunya", explica a pesquisadora Nelzair Vianna, da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) na Bahia. A depender da proliferação dos mosquitos, grande parte da comunidade pode ser infectada, o que se tornaria um problema especialmente pela falta de assistência à saúde que o desastre já provoca.
Sem o controle dos órgãos públicos e concessionária, a água potável que passaria por tratamento é oferecida com contaminação por esgoto, aumentando as chances de quadros associados às precárias condições de saneamento básico"A hepatite A, por exemplo, é transmitida pela ingestão de partículas de fezes contaminadas", explica a pesquisadora da Fiocruz. Os sintomas incluem fadiga, náuseas, dor abdominal, perda de apetite e febre baixa. Ocorre também o risco de contaminação por tétano, pois a bactéria que causa a doença pode ser facilmente encontrada em solo, na poeira e em fezes de animais, e acessa o organismo através de ferimentos ou lesões de pele. E em alguns locais ocorre a exposição a resíduos químicos.
Além de todas essas complicações na saúde vale salientar que também há o impacto à saúde, que é o sofrimento emocional que as pessoas das comunidades afetadas passam. "Imagine acordar de manhã em um lugar e de noite ele não existir mais. E o que foi embora não são só casas, mas toda uma comunidade que já estava bem estruturada. Vimos isso acontecer em outros locais como Mariana e Brumadinho, em Minas Gerais, e provavelmente vai ocorrer de novo. Ocasionalmente há unidades que não é possível reconstruir", diz Fróes.
Depois desses eventos extremos, a emissora BBC News Brasil consultou especialistas que apontaram o quanto é essencial que as autoridades desenvolvam programas que ajudem na adaptação e tratamento no âmbito emocional. "Entre os quadros frequentes nesses sobreviventes vemos estresse pós-traumático, distúrbios do sono, pesadelos e memórias repetidas, dificuldade de concentração, raiva, ansiedade, pânico e depressão. Esses sentimentos podem levar ao abuso de medicamentos, álcool e outras drogas, e esse sofrimento psíquico, geralmente negligenciado inclusive por nós da área da saúde, não pode ser ignorado", alerta Núbia Cruz.
Neste momento, muitos dos sobreviventes dependem de doações externas para tudo - desde itens de higiene até água e alimentos, que podem ser enviados por meio de instituições sem fins lucrativos.
"Como sociedade, nos mobilizamos para ajudar logo após a tragédia, o que é ótimo, as doações são essenciais... Mas também temos que pensar em longo prazo. Um acompanhamento das autoridades a médio e longo prazo é necessário, já que as questões dos afetados não se resolvem em seis meses", aponta a pesquisadora da UFRJ. "Além de perder vidas, as pessoas perderam seus trabalhos, suas moradias, e políticas públicas focadas especificamente nessas questões precisam ser estabelecidas com urgência para que de fato ocorra uma mudança", conclui Núbia Cruz.
Texto por Paula Eduarda Rocha | Ipedss Science
Fonte:
- GRANCHI, Giulia. De leptospirose a tétano: os riscos à saúde trazidos por enchentes e deslizamentos de terra. BBC News Brasil, 2022. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/geral-60440469> Acessado em: 21/02/2022.
