A Fibrose Cística (FC) é uma doença genética incurável que prejudica a função pulmonar e reduz significativamente a expectativa de vida. Ela caracteriza-se pelo acúmulo de muco espesso e pegajoso. A fibrose cística, também conhecida como doença do beijo salgado ou mucoviscidose.

A FC causa um defeito no canal de íons CFTR (que fica na superfície das células epiteliais das vias aéreas e transporta sal e água) interrompe o equilíbrio normal de fluidos, resultando em muco altamente viscoso, cerca de 30 a 60 vezes mais espesso que o usual. A fibrose cística prejudica principalmente os pulmões, que ficam obstruídos por esse muco viscoso e, portanto, tornam-se menos eficazes na eliminação de patógenos.

O resultado é infecção crônica e inflamação das vias aéreas, função pulmonar progressivamente prejudicada e dificuldade para respirar. Em casos graves, um transplante de pulmão pode ser necessário. Esse muco também pode bloquear o trato digestório e o pâncreas, o que impede que enzimas digestivas cheguem ao intestino. O corpo precisa dessas enzimas para digerir e aproveitar os nutrientes dos alimentos, essencial para o desenvolvimento e saúde do ser humano. Pessoas com fibrose cística frequentemente precisam repor essas enzimas através de medicamentos tomados junto às refeições, como forma de auxílio na digestão e nutrição apropriadas.

Ela é uma doença que atinge cerca de 70 mil pessoas em todo o mundo, sendo também a doença genética grave mais comum da infância. No Brasil existem quase 2.700 brasileiros com Fibrose Cística, e um a cada 10 mil nascidos vivos sofre com a doença. As pessoas afetadas pela doença costumavam morrer antes de atingir a idade adulta. Hoje, a expectativa média de vida é de cerca de 55 anos.

Atualmente existem medicações para o tratamento de FC, que visam não só melhorar os sintomas da doença, como os defeitos moleculares subjacentes, melhorando a função do canal CFTR (conhecidos como moduladores CFTR). Pois cerca de 90% dos pacientes acometidos com a doença apresentam defeito subjacente do canal CFTR, que é causado por uma falha específica conhecida como mutação F508del.

Em 2020, surgiu um novo tipo de tratamento na Europa, utilizando uma terapia tripla combinando três moduladores CFTR (elexacaftor, tezacaftor e ivacaftor), porém esse tratamento só é indicado para pacientes acima de 12 anos de idade. Como explicado pelo Imunologia e Medicina Intensiva e Centro de Fibrose Cística Charité, "Infelizmente, até agora, esse tratamento só estava disponível para pacientes com 12 anos ou mais. Isso porque, tradicionalmente, os novos medicamentos são testados e autorizados para uso em adultos. O que queremos fazer, no entanto, é administrar este tratamento causal o mais cedo possível durante o curso da doença para evitar danos irreversíveis aos pulmões. Isso só é possível se o tratamento começar durante a infância. O que pudemos fazer agora é mostrar que isso pode ser feito de forma segura e muito eficaz em crianças mais jovens."

Ainda de acordo com o imunologista, novos medicamentos até são testados e desenvolvidas, mas sempre são voltados para adultos, e o que os especialistas estão idealizando agora é a utilização destes medicamentos desde a infância, pois quanto mais cedo forem apresentados ao tratamento, o curso da doença, pode ser alterado, a fim de evitar danos pulmonares irreversíveis. Para provar que é seguro administrar o tratamento desde a infância, os pesquisadores realizaram estudos para avaliar os efeitos da terapia de combinação tripla em 121 crianças com fibrose cística, os participantes tinham entre 6 e 11 anos e tinham pelo menos uma cópia da mutação F508del. As crianças foram randomizadas para receber o regime de combinação tripla ou placebo por um período de aproximadamente seis meses.

O estudo, que foi realizado em centros em dez países diferentes, foi concebido como um ensaio clínico randomizado - o padrão ouro em pesquisa clínica. "Esse tipo de estudo clínico continua sendo uma raridade no desenvolvimento de medicamentos pediátricos", diz o Prof. Mall, Professor Einstein em Charité e líder de pesquisa em fibrose cística no Centro Alemão de Pesquisa de Pulmão (DZL). "A inclusão de grupos de controle é muitas vezes negligenciada na pesquisa pediátrica, dados de adultos são usados ​​para extrapolar os efeitos de adultos para crianças. Mas as crianças não são simplesmente adultos pequenos. Estudos de alta qualidade são, portanto, cruciais para o desenvolvimento de medicamentos seguros e eficazes para crianças."

"Fiquei surpreso e encantado ao ver que, mesmo no início da trajetória da doença e apesar da curta duração do tratamento, as crianças experimentaram melhorias notáveis", diz o Prof. Mall. "Estas descobertas contribuíram para a decisão da Agência Europeia de Medicamentos de expandir a autorização de comercialização deste regime de combinação tripla para incluir crianças com 6 anos ou mais. Isso significa que já estamos em condições de tratar crianças nessa faixa etária.

Como próximo passo, a equipe de pesquisa planeja testar se a combinação de drogas pode ser adequada para uso em crianças ainda mais novas. Dado que a fibrose cística faz parte do programa de triagem neonatal, a doença agora pode ser diagnosticada nas primeiras semanas de vida. "Isso nos colocaria em posição de iniciar o tratamento causal para a fibrose cística já na primeira infância, o que, com sorte, evitaria danos nos pulmões e possivelmente em outros órgãos, como o pâncreas. Estamos mais próximos dessa meta. Atualmente, estamos testando a segurança e eficácia dessa terapia tríplice combinada em crianças de 2 a 5 anos", explica o Prof. Mall.

Texto por Paula Eduarda Rocha | Ipedss Science

Fontes:

  • Marcus A Mall, Rossa Brugha, Silvia Gartner, Julian Legg, Alexander Moeller, Pedro Mondejar-Lopez, Dario Prais, Tacjana Pressler, Felix Ratjen, Philippe Reix, Paul D Robinson, Hiran Selvadurai, Florian Stehling, Neil Ahluwalia, Emilio Arteaga-Solis , Bote G Bruinsma, Mark Jennings, Samuel M. Moskowitz, Sabrina Noel, Simon Tian, ​​Tanya G. Weinstock, Pan Wu, Claire E Wainwright, Jane C. Davies. Eficácia e segurança de Elexacaftor/Tezacaftor/Ivacaftor em crianças de 6 a 11 anos de idade com fibrose cística heterozigótica para F508del e uma mutação de função mínima: um estudo de fase 3B, randomizado, controlado por placebo . American Journal of Respiratory and Critical Care Medicine , 2022; DOI: 10.1164/rccm.202202-0392OC
  • Charité - Universitätsmedizin Berlin. Fibrose cística: tratamento causal adequado desde a infância. ScienceDaily, 2022. Disponível em: <https://www.sciencedaily.com/releases/2022/08/220808161831.htm> Acessado em 10 de agosto de 2022.
  • GBEFC. Fibrose Cística. Portal GBEFC, 2022. Disponível em: <http://portalgbefc.org.br/site/pagina.php?idpai=6&id=39#:~:text=Atualmente%20existem%20quase%20de%202.700,e%20menos%20comum%20entre%20afrodescendentes.> Acessado em 10 de agosto de 2022.
  • MINISTÉRIO DA SAÚDE. Fibrose Cística. Biblioteca Virtual da Saúde, 2022. Disponível em: <https://bvsms.saude.gov.br/fibrose-cistica/> Acessado em 10 de agosto de 2022.

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