
O vírus Mayaro é um arbovírus (vírus transmitido por artrópodes) da família Togaviridae, gênero Alphavirus, assim como o vírus Chikungunya (CHIKV), ao qual é relacionado genética e antigenicamente. Em 1954 o vírus foi isolado pela primeira vez em Trinidad e Tobago, já no Brasil o primeiro surto aconteceu em Belém do Pará em 1955, às margens do rio Guamá. A partir de então começaram a ocorrer surtos específicos, e casos eventuais, descritos nas Américas, incluindo o Brasil, sobretudo nas regiões Centro-Oeste e Norte.
A doença causada pelo vírus Mayaro, é conhecida como Febre do Mayaro, ela é uma doença infecciosa febril aguda, cujo quadro é semelhante à Dengue e à Chikungunya. E talvez seja essa semelhança a responsável pelos resultados do trabalho desenvolvido pelo professor Luiz Tadeu Moraes Figueiredo, da FMRP. Segundo ele, os vírus Chikungunya e Mayaro são endêmicos no Brasil e causam doença febril com acometimento articular, como dor e inchaço que, em alguns casos, podem durar meses ou anos. “O chikungunya é um problema de saúde pública mundial, sendo responsável por causar milhões de casos e epidemias, principalmente em regiões de clima tropical”, aponta. “ Sua transmissão ocorre em ambientes urbanos através de mosquitos do gênero Aedes.”
Diferente do Chikungunya que é um problema mundial, o Mayaro tem uma distribuição limitada ao território da América Latina, sua transmissão também ocorre pela família Culicidae, mas por um gênero diferente o Haemagogus, que vive em regiões florestais. “Ele é transmitido principalmente no ambiente silvestre entre mosquitos e animais vertebrados, como, por exemplo, macacos e seres humanos. Também é endêmico no Brasil e responsável por surtos esporádicos em regiões de contato próximo a florestas”, descreve o pesquisador. “Acredita-se que os seres humanos são infectados acidentalmente pelo mayaro, entretanto, sua disseminação tem causado grande preocupação em órgãos públicos e na comunidade científica. Assim como o chikungunya, ele causa doença febril aguda com acometimento inflamatório das articulações (dores), que são os principais sintomas, e em alguns casos essa inflamação pode evoluir para doença crônica e perdurar por meses ou anos. Ambos os vírus não possuem vacinas ou tratamentos específicos disponíveis.”
“O diagnóstico específico do mayaro é feito por meio de testes moleculares, entretanto o vírus só é detectado na fase aguda da doença, de cinco a sete dias após a infecção, e torna-se mais complicado fazer o diagnóstico diferencial, pois não temos testes sorológicos específicos para diferenciar entre as infecções pelos dois vírus”, relata o pesquisador Fumagalli. “O mayaro apresenta elevada expectativa de emergência e transmissão para outras regiões. Considerando que o vírus chikungunya circula de maneira mais ampla e comum no País, decidimos estudar quais seriam os possíveis impactos da infecção secundária pelo mayaro, considerando que o mesmo pode ainda se alastrar e circular em regiões onde já circula o chikungunya.”
Para realização da pesquisa foram feitos diferentes testes, um utilizando camundongos e o outro in vitro [em laboratório] utilizando amostras sanguíneas de acometido por Chikungunya ou Mayaro. “Nos camundongos, realizamos a infecção primária pelo chikungunya e, após um mês, realizamos a infecção secundária pelo mayaro, que normalmente desenvolve doença inflamatória aguda local. Neste contexto, avaliamos como a infecção primária foi capaz de alterar o perfil da doença secundária durante a infecção pelo mayaro”, relata Fumagalli. “Com as amostras de pessoas infectadas, avaliamos in vitro a reatividade e a proteção cruzada mediada por seus anticorpos contra ambos os vírus.”
“Em camundongos, observamos em ensaios in vitro que apenas a infecção primária pelo chikungunya não é capaz de induzir elevados níveis de anticorpos com propriedades protetoras cruzadas para mayaro. Entretanto, após ocorrer a infecção secundária, os níveis de anticorpos protetores aumentam rapidamente, e o quadro da doença é reduzido de maneira muito significativa”, ressalta o pesquisador. “Ao investigar melhor, observamos também uma ampla redução no recrutamento de células de defesa e de mediadores inflamatórios, assim como uma grande redução na carga viral, melhora na patologia de tecidos infectados e no quadro clínico dos animais. Isso sugere que a proteção cruzada em animais não depende só da produção de anticorpos, mas de mecanismos imunológicos um pouco mais complexos.”
Os dados das amostras humanas trouxeram respostas bem parecidas com os testes realizados em camundongos, foi notória a baixa quantidade de anticorpos produzidos em relação à proteção cruzada, que potencialmente tendem a aumentar após uma infecção secundária, ocasionando em um papel fundamental na redução da doença secundária. Mesmo com dados positivos e inéditos, os pesquisadores afirmam que esse estudo não permite alcançar no momento possíveis tratamentos. Mas os resultados indicam que uma pessoa infectada pelo vírus da Chikungunya em algum momento de sua existência possivelmente obtém proteção parcial sob o vírus Mayaro em uma infecção futura.
Essa descoberta desencadeia inúmeros questionamentos, tais como: o quão profundo será o impacto clínico desta proteção cruzada durante uma reinfecção com um vírus diferente?, esta proteção cruzada seria suficiente para limitar a emergência do vírus mayaro em regiões onde circulam os vírus chikungunya?; quais as consequências epidemiológicas na dinâmica de transmissão e disseminação desses vírus?”, questiona o pesquisador. “Esperamos que futuros estudos epidemiológicos e clínicos ajudem a resolver estas questões.”
Texto por Paula Eduarda Rocha | Ipedss Science
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