Uma mulher norte-americana, que foi identificada apenas com EG (para proteger sua identidade), não possui o lobo temporal esquerdo, região cerebral a qual está diretamente envolvida no processamento da linguagem. Em 1987, ao realizar uma ressonância por um motivo não relacionado a linguagem, EG soube da alteração em seu cérebro que provavelmente se deu devido a um derrame ocorrido quando ela ainda era um bebê.

Fotografia: Evelina Fedorenko, Greta Tuckute/Cérebro e Ciências Cognitivas
Fotografia: Evelina Fedorenko, Greta Tuckute/Cérebro e Ciências Cognitivas

Mesmo sem apresentar o lobo temporal esquerdo, EG é bilíngue, (fala russo fluentemente além do inglês). Ela fez parte de uma pesquisa feita por uma equipe de pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), liderados pela neurocientista cognitiva Evelina Fedorenko. O estudo teve como objetivo entender como o cérebro de EG reorganizou suas tarefas, uma vez que ele perdeu uma parte de sua massa. Fedorenko realiza pesquisas voltadas ao desenvolvimento de regiões cerebrais que desempenham um papel no aprendizado e na compreensão da linguagem.

Na maioria dos casos o processamento da linguagem acontece no hemisfério esquerdo do cérebro, no entanto, em determinados casos é possível que a carga seja dividida de forma igual para ambos os hemisférios. É possível também que o hemisfério direito assuma a maior parte da tarefa, mas isso é bem mais raro que ambos os casos citados anteriormente. As regiões frontal e temporal também são importantes nesse processo. A parte frontal é necessária para o planejamento e execução comportamental, enquanto que a temporal é importante para o processamento de informações e codificação da memória.

O caso de EG é bastante intrigante uma vez que o lobo temporal esquerdo inteiro está ausente. Os pesquisadores então quiseram saber se ela apresentava atividade de linguagem no seu lobo frontal esquerdo, e se caso ocorresse, isso sugeriria que áreas frontais da linguagem podem existir sem a necessidade de um lobo temporal no mesmo lado.

Na tentativa de fazer essa identificação, os pesquisadores utilizaram uma ressonância magnética funcional para captar a atividade cerebral de EG, à medida em que ela realizava atividades relacionadas a palavras, como por exemplo a leitura de frases. Eles procuraram evidências de atividade de linguagem em seu lobo frontal esquerdo e em seguida compararam essa atividade cerebral com cerca de 90 controles neurotípicos (dados semelhantes de pessoas com lobos temporais esquerdos intactos).

Contudo não foram encontrados indícios e desta forma foi possível concluir que sua capacidade linguística foi transferida para outra parte do cérebro. Segundo os pesquisadores, o córtex frontal esquerdo de EG é perfeitamente capaz de suportar funções cognitivas de alto nível. Na ausência de um lobo temporal esquerdo, a tarefa de processamento da linguagem parece ter sido transferida para o hemisfério direito. Um único hemisfério parece ser suficiente para dar habilidades linguísticas a EG.

“Se você pode remover metade de um cérebro e funcionar bem, isso sugere que há muitos bits em nossos cérebros típicos que são redundantes”, afirmou Fedorenko à revista britânica Wired. “Aparentemente, há muitas coisas em nosso cérebro que são totalmente redundantes, o que é – em termos de engenharia – uma maneira muito boa de construir um sistema”, concluiu.

Quando a anormalidade se desenvolve na infância, como no caso de EG, o sistema nervoso é capaz de se adaptar de forma mais forte e rápida, ou seja, outra parte do cérebro geralmente pode compensar a função ausente, formando novas conexões neurais que assumem a tarefa.

Texto por Dalcio Neto | Ipedss Science

Fontes:

  • BARROS, Matheus. Mulher que nasceu sem parte do cérebro responsável pela linguagem é bilíngue. Olhar digital, 2022. Disponível em: <https://olhardigital.com.br/2022/04/15/medicina-e-saude/mulher-que-nasceu-sem-parte-do-cerebro-responsavel-pela-linguagem-e-bilingue/>. Acesso em: 19/04/2022.
  • BROWNE, Grace. She Was Missing a Chunk of Her Brain. It Didn’t Matter. Wired, 2022. Disponível em: <https://www.wired.co.uk/profile/grace-browne>. Acesso em: 19/04/2022.

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