
Com os aumentos de casos de Covid-19, começaram a surgir também suspeitas de casos de reinfecções, que aos poucos se tornaram bem mais que suspeitas, e sim ocorrências cada vez mais comuns. As primeiras pesquisas da África do Sul (ainda em fase de preprint ou pré-publicação, aguardando revisão por outros cientistas) sugerem que o risco de reinfecção aumentou rápida e substancialmente após a chegada da variante. Mas por que as reinfecções estão aumentando? A resposta simples é porque nossa imunidade muitas vezes não é mais suficiente para prevenir uma infecção.
Isso acontece porque após surgir uma nova variante (e se há uma nova variante é resultado de uma modificação na variante antiga, o que o pode ocasionar em uma mudança também na forma de reconhecimento do sistema imunológico) que pode resultar em um “drible” do vírus no nosso sistema imunológico, ou pode ser porque a imunidade diminui desde a última vez que fomos infectados ou vacinados. Sabemos que este é um problema específico da imunidade contra a covid, por isso a necessidade de doses de reforço da vacina.
Além disso, o coronavírus quase sempre entra no corpo humano pelo nariz e pela garganta. A imunidade na mucosa que reveste estas áreas tende a ser relativamente de curta duração em comparação com a imunidade sistêmica em todo o corpo. Isso pode explicar por que a proteção contra doenças graves, geralmente enraizadas nos pulmões, dura mais do que a proteção contra infecções.
Pode ser classificada como reinfecção quando o acometido recebe um segundo resultado positivo, cerca de 90 dias após o primeiro. Até 6 de fevereiro de 2022, haviam sido registradas mais de 14,5 milhões de infecções primárias e cerca de 620 mil reinfecções na Inglaterra, ou seja, uma reinfecção para cada 24 infecções primárias. Mais de 50% de todas as reinfecções foram reportadas desde 1º de dezembro de 2021, sugerindo novamente que o risco de reinfecção aumentou substancialmente com a Ômicron.
O ONS (Instituto Nacional de Estatísticas Britânico -ONS, na sigla em inglês) sugere que a taxa de reinfecção aumentou 15 vezes desde a chegada da Ômicron, e que atualmente as reinfecções representam cerca de 10% de todas as infecções registradas na Inglaterra, em comparação com apenas 1% em novembro de 2021. Porém existe a suspeita de que esses dados estejam subestimados, pois intervalo de 90 ou 120 dias, sem dúvida, vai deixar escapar algumas reinfecções que ocorrem mais cedo.
Além disso, comparando os números de casos registrados diariamente com estimativas de quanto da população está infectada com o vírus em um determinado momento, parece que cerca de metade das infecções primárias nunca são diagnosticadas. Muitas reinfecções são, portanto, provavelmente categorizadas incorretamente como primárias. E, se as reinfecções são geralmente mais leves, é provável que uma proporção maior não seja diagnosticada.
As infecções primárias em pessoas vacinadas (que têm alguma imunidade à covid) são geralmente menos graves do que as infecções primárias em pessoas não vacinadas (que não possuem imunidade), é por isso que as taxas de hospitalização são menores entre os vacinados, em geral, as reinfecções devem ser menos graves do que as infecções primárias, uma vez que a pessoa que está sendo reinfectada terá alguma imunidade pré-existente decorrente de sua infecção primária.
Além disso, muitas pessoas terão sido vacinadas entre suas infecções, o que aumentará ainda mais seus níveis de imunidade, e mesmo que a imunidade contra ser infectado pelo coronavírus e desenvolver sintomas de covid diminua, a proteção contra doenças graves e morte parece muito mais durável. Então, no extremo das coisas, as reinfecções definitivamente parecem ser menos graves. No entanto, se a segunda infecção vai acabar não sendo tão ruim quanto a primeira, pode depender de quando você é infectado.
E as reinfecções fortalecem a imunidade? Quase certamente sim. Uma única infecção anterior oferece proteção semelhante contra infecção por ômicron quanto duas doses da vacina, portanto, é razoável supor que as reinfecções também vão aumentar a imunidade. Mas esta imunidade ainda não será 100% protetora. Há evidências emergentes (em fase de preprint) de pessoas sendo reinfectadas várias vezes. Isto, no entanto, não deveria ser surpresa, pois sabemos que os outros coronavírus humanos causam reinfecções a cada poucos anos.
Texto por Paula Eduarda Rocha | Ipedss Science
Fonte:
- HUNTER, Paul . Pegar covid pela segunda vez aumenta a imunidade?. BBC News Brasil, 2022. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/internacional-60386430> Acessado em: 25/02/2022.
