Não é a primeira vez que uma doença que havia sido erradicada no Brasil volta a se tornar preocupação, como é o caso do sarampo, que após os últimos casos da doença em 2015, o Brasil recebeu em 2016 a certificação da eliminação do vírus. Consequentemente, em 2016 e 2017, não foram confirmados casos de sarampo no País, já no ano de 2018, a doença voltou e foram registrados 10,3 mil casos e isso fez com que, no ano seguinte, o Brasil perdesse a certificação de “país livre de sarampo”. Já em relação à poliomielite, o último paciente com poliomielite no Brasil foi identificado em 1989. Em 1994, nosso país recebeu da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) o certificado de eliminação da transmissão do vírus causador dessa enfermidade.

No final do ano de 2021 as últimas informações divulgadas pela Opas mostrou que o Brasil é um dos países das Américas que está de volta a uma posição relacionada a alto risco de ocorrência da poliomielite, além do Brasil, estão mais alguns países, sendo eles: Bolívia, Equador, Guatemala, Haiti, Paraguai, Suriname e Venezuela. A Opas explica que a causa do retorno da doença após exatos 30 anos sem nenhum caso é a baixa taxa de vacinação nesses locais, o que representa um enorme perigo para todo o continente.

Popularmente conhecida como paralisia infantil ou pólio, a poliomielite é uma doença contagiosa aguda que pode gerar paralisias musculares – especialmente nas pernas. Atrofia da fala, paralisia dos músculos da deglutição, crescimento desigual das pernas, osteoporose, hipersensibilidade ao toque e dores nas articulações também estão entre as sequelas da pólio. Ela é causada pelo poliovírus, que ataca a medula e o cérebro. Pode infectar crianças e adultos por meio do contato com fezes ou secreções da boca de uma pessoa infectada.

A vacina é a única forma de prevenção e todas as crianças abaixo de cinco anos devem ser imunizadas. Depois de um surto da doença na década 1970, os países do continente americano se esforçaram para contê-la. Com isso, em 1991 foi registrado o último caso de poliovírus selvagem na região e, em 1994, as Américas foram certificadas como livres da pólio

"A ameaça de reintrodução da pólio na região é real", disse Andrés de Francisco, diretor de Família, Promoção da Saúde e Curso de Vida da Opas, em recente comunicado emitido pela organização. "Não podemos retroceder. Evitar casos de poliomielite depende de ter uma população infantil altamente vacinada e uma forte vigilância da doença".

O Malauí, que não notificava casos desde 1992, dá o exemplo do que pode acontecer por aqui. Em 17 de fevereiro, autoridades daquele país declararam um surto de poliovírus selvagem tipo 1, depois que um caso foi detectado na capital, Lilongwe. A cepa viral identificada no Malauí está geneticamente relacionada a um poliovírus detectado em 2019 e 2020 no Paquistão – país onde a doença ainda é endêmica, junto com o Afeganistão. “O recente caso de poliovírus selvagem na África é um lembrete de que, quando o vírus continua a circular, as crianças de todo o mundo correm risco”, apontou Andrés de Francisco.

Especialistas brasileiros alertam que os crescentes movimentos antivacina representam um perigo real nesse cenário. “O trabalho de vacinação é boicotado por conflitos, além de questões políticas e religiosas. Não basta ter vacina segura, eficaz e disponível, há outros aspectos que complicam a questão”, disse Juarez Cunha, presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), em entrevista a O Globo.

De acordo com a Opas, as Américas tiveram uma taxa de 82% de vacinação com as três doses contra a pólio em 2020 - a menor desde 1994. No Brasil, os índices de crianças imunizadas caíram de 98% para 76% entre 2015 e 2020. “Não é brincadeira. Precisamos aumentar essa cobertura. Caso contrário, ainda falaremos muito de pólio no Brasil. É uma doença muito triste”, declarou Luiza Helena Falleiros, presidente da Câmara Técnica de Certificação da Erradicação da Poliomielite no Brasil junto à Organização Pan-Americana da Saúde (Opas).

Texto por Paula Eduarda Rocha | Ipedss Science

Fonte:

  • REVISTA GALILEU. Entenda por que um novo surto de poliomielite pode atingir o Brasil, 2022. Disponível em: <https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/Saude/noticia/2022/02/entenda-por-que-um-novo-surto-de-poliomielite-pode-atingir-o-brasil.html> Acessado em: 03/03/2022.

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