A nova onda de casos de Covid-19 ocasionadas pela cepa recém descoberta do Coronavírus, causando inclusive novos recordes de contaminação em todo o mundo. Em meio a tudo isso surge uma nova evidência de anticorpos que podem neutralizar a Ômicron, abrindo caminhos para o controle dela e possivelmente de outras variantes. As estruturas de defesa podem ser usadas para criar novas vacinas e tratamentos contra a Covid-19. O estudo foi publicado na revista Nature.

As descobertas têm como alvo anticorpos que são capazes de identificar áreas da proteína spike (proteína capaz de permitir a entrada do vírus na célula humana, os cientistas descobriram ao todo cerca de quatro classes de anticorpos que são capazes de neutralizar a Ômicron. Cada uma delas têm como alvo uma das quatro partes da proteína spike, presente não apenas nas variantes do Sars-CoV-2, mas também em um grupo de coronavírus relacionados, chamados sarbecovírus.

Essas defesas atuam pontualmente em regiões da proteína que permanecem inalteradas pelas mutações que ocorrem no Coronavírus, o que facilita a neutralização da Ômicron, já que a variante tem 37 mutações em sua proteína spike, e foi essa alta mutação que é associada à grande capacidade de infecção da cepa, inclusive em pessoas vacinadas ou previamente infectadas . Os autores do estudo acreditam que o grande número de mutações da variante se acumulou durante uma infecção prolongada em alguém com um sistema imunológico enfraquecido ou pelo fato do vírus ter passado de humanos para uma espécie animal e vice-versa.

Ilustração da proteína spike do Sars-CoV-2 (Foto: Okinawa Institute of Science and Technology Graduate University)
Ilustração da proteína spike do Sars-CoV-2 (Foto: Okinawa Institute of Science and Technology Graduate University)

Para tentar entender o funcionamento do Coronavírus e suas mutações, os pesquisadores criaram um pseudovírus desativado e não replicante. Com ele, a equipe produziu algumas proteínas spike com as mutações da Ômicron e outras com as mutações das primeiras variantes identificadas na pandemia. E desta maneira eles conseguiram encontrar que se comparada às demais cepas a Ômicron consegue se ligar até 2,4 vezes melhor ao receptor da enzima conversora de angiotensina 2 (ACE2). O receptor fica na superfície das células e é usado pelo coronavírus para entrar nelas. Outra descoberta realizada foi a questão da ligação da Ômicron com receptores de ACE2 de camundongo de forma eficiente, o que sugere que a variante pode ter passado de outros mamíferos para humanos.

Ocorreram também testes para ver como os anticorpos de pacientes podem proteger contra o Ômicron, e foi descoberto, porém, que pessoas infectadas por cepas anteriores ou que receberam uma das vacinas atuais têm capacidade reduzida de bloquear a infecção por essa variante de preocupação.

Em relação aos anticorpos recebidos através de vacinações, os cientistas obtiveram resultados diferentes, para diferentes tipos de imunizantes. Quem foi vacinado com a Sputnik V, Sinopharm, e a Janssen (em dose única), apresentaram pouca ou nenhuma capacidade de bloquear a entrada da Ômicron. Quem recebeu Moderna, Pfizer e AstraZeneca tiveram uma neutralização do vírus reduzida em 20 a 40 vezes. A redução cai para cerca de 5 vezes em imunizados que tiveram uma infecção pelo vírus anterior à vacinação.

Por último, a neutralização do coronavírus teve queda bem menor (de apenas 4 vezes) em um grupo de pacientes em diálise renal vacinados com a terceira dose da Moderna e da Pfizer. “Isso mostra que uma terceira dose é muito, muito útil contra a Ômicron”, observa David Veesler, um dos líderes do estudo, em comunicado. Porém a desigualdade em vacinas pelo mundo atrasa o fim da pandemia.

Como foi dito pela ONU “Ninguém está seguro até que todos estejam seguros”. A mesma pede mais empenho para acelerar o ritmo da vacinação, assegurando pelo menos 70% da população vacinada até 2022. As 10 maiores economias mundiais detêm maior taxa de imunização. Já países de baixa renda, especialmente os africanos, têm em média 0,8% de vacinação. A ONU acredita que é possível alcançar a meta da Organização Mundial da Saúde de levar a vacina a todos com 11 bilhões de doses e ampliar a cobertura de imunização prevenindo o surgimento de novas variantes.

Por outro lado, no que diz respeito aos tratamentos de anticorpos já aprovados para uso em pacientes com Covid-19, a atividade contra a Ômicron foi significativamente reduzida ou inexistente em testes de laboratório. A única exceção foi o tratamento com sotrovimab, que teve uma redução de duas a três vezes na atividade neutralizante contra a cepa.

Texto por Paula Eduarda Rocha | Ipedss Science

Fontes:

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