Um recente trabalho brasileiro, desenvolvido por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), publicado na revista Frontiers in Fisiologia, um grupo de pesquisadores discutem sobre as influências da covid-19 no nosso organismo, mais precisamente os mecanismos pelos quais nossos rins podem ser prejudicados pela doença, e como identificar possíveis tratamentos capazes de atenuar sintomas, ou até prevenir problemas mais graves no sistema renal ou até mesmo o desenvolvimento de uma doença crônica.

Através do estudo foi descoberto que o vírus interage com uma enzima a ACE2 (sigla em Inglês), permitindo a sua replicação e infecção dentro da célula, mas além disso, acaba por provocar um desequilíbrio nos sistemas que regulam a pressão arterial, e influenciam na inflamação e na proliferação celular e em muitos processos biológicos. São essas alterações nos processos biológicos que causam uma redução no fluxo sanguíneo renal e a taxa de filtração glomerular (TFG), e desta maneira acarretam em alterações nos rins, como na capacidade de eliminar metabólitos, que em excesso torna-se tóxicas para o organismo, ocorre também uma elevação da vasoconstrição, o que acaba sobrecarregando e comprometendo a função renal.

“Estudos e revisões sistemáticas confirmam um impacto de 20% a 40% de lesão renal aguda em pacientes com Covid-19. Agora estão sendo publicados os dados mostrando que em alguns casos a recuperação é mais lenta e em outros há sequelas, necessitando de diálise para esses pacientes ”, afirma a pesquisadora Nayara Azinheira Nobrega Cruz, primeira autora do artigo. A professora Dulce Elena Casarini, uma das orientadoras do projeto, destaca a preocupação com um possível crescimento de casos graves de lesão nos rins decorrente da Covid-19. “Se há um aumento agora pela procura de diálise, no futuro poderemos ter demanda maior por transplantes ”, diz a professora, em entrevista à Agência FAPESP.

Uma outra pesquisa, que utilizou dados dos Estados Unidos e foi publicada no Jornal Sociedade Americana de Nefrologia, indicou que em média 7 a cada 10 mil acometidos por covid-19, que apresentaram quadros leves ou moderados precisaram de diálise ou transplante de rins. Já os acometidos que não apresentaram sintomas, nem foram hospitalizados, tem em média 23% a mais de chances de sofrerem lesões renais se comparados às pessoas que não foram infectadas.

Apesar da descoberta dessa interação entre o vírus e a enzima não indica que essa seja a forma real que acarreta em complicações renais, pois essas complicações podem acontecer de forma multifatorial, mas ela indica que a infecção é capaz de provocar lesão indireta nos rins devido à inflamação sistêmica, à insuficiência de oxigênio transportado para os tecidos do corpo (hipoxemia) e ao desequilíbrio do sistema renina-angiotensina.

Ademais, o novo Coronavírus pode infectar células renais, causando uma lesão direta e o comprometimento do sistema renina-angiotensina intrarrenal, contribuindo assim para doenças agudas e de longo prazo. “Fizemos um compilado para embasar futuros estudos e mostrar a importância do impacto da Covid-19 em outros órgãos, além do sistema respiratório”, diz Cruz.

Texto por Paula Eduarda Rocha | Ipedss Science

Fontes:

- Revista Galileu

- Revista Frontiers in Fisiologia

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