A pesquisa brasileira conduzida pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e pela Universidade de São Paulo (USP), desvendou um dos mecanismos que faz o zika vírus ocasionar complicações neurológicas em pacientes adultos e microcefalia em fetos. O estudo demonstrou uma correlação entre as complicações neurológicas do zika com níveis elevados de Gas6, uma proteína que ajuda o vírus a entrar nas células.

As principais fontes de Gas6 são os monócitos periféricos, um grupo de células do sistema imunológico. Na forma ativa, o Gas6 liga-se a receptores da família TAM (Axl, Tyro3 e Mer) e após a entrada nas células, ele é capaz de reprimir uma respostas inflamatória no organismo, o que facilita a replicação viral e leva ao agravamento da infecção pelo zika. Segundo o professor e coordenador da pesquisa José Luiz Proença Modena, o vírus induz à expressão de Gas6, que aparece em maior nível nos pacientes com a forma grave da doença.

Os pesquisadores correlacionaram os níveis de Gas6 com as complicações neurológicas através da análise de soro de pacientes (por meio de um teste imunoenzimático). A pesquisa contou com a avaliação de amostras de 57 pacientes com a doença leve (não neuro), 19 pacientes com complicações neurológicas após a infecção por zika (neuro), 14 pacientes com complicações neurológicas sem ligação com a doença e 13 pessoas saudáveis. Os pacientes classificados como neuro apresentaram maiores níveis de Gas6, com aumento de supressores de sinalização de citocinas (SOCS-1), sendo elas responsáveis pelo bloqueio das respostas antivirais de interferon tipo 1.

Paralelamente a esses testes foram realizados testes em camundongos adultos, sendo que o sistema imune deles é capaz de combater o vírus (linhagens C57BL/ 6 e SJL). O vírus recoberto com Gas6 foi inoculado em animais prenhes e em animais não prenhes. Nos animais adultos a carga viral foi muito maior em comparação aos animais que receberam o vírus sem a Gas6. Isso demonstrou que a proteína ajuda na infecção. Entre os filhotes ocorreu um elevado número de malformações congênitas, apresentando cabeça e tamanho geral inferiores.

Para conseguir se ligar aos receptores celulares, a proteína Gas6 precisa sofrer carboxilação, uma reação química que permite a interação com outras moléculas. Os pesquisadores testaram in vitro o uso da droga varfarina e perceberam que ela foi capaz de inibir ou diminuir a replicação do vírus. Ao Jornal da USP, Modena afirmou que “Decifrando esse mecanismo abrimos a possibilidade de novas análises que permitam a intervenção por fármacos. Mostramos que o tratamento com varfarina em culturas de células é efetivo para a inibição da multiplicação do vírus. Não avaliamos se vai funcionar na clínica, mas é uma porta que se abre”. O resultado da pesquisa possibilita que novos estudos visem medicamentos capazes de inibir o agravamento da doença.

Texto por Dalcio Neto | Ipedss Science

Fontes:

- Jornal da USP

- Unicamp

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