A melanopsina (OPN4) é uma proteína encontrada em células da pele e da retina, a qual atua como um sensor de luz. Um estudo desenvolvido na Universidade de São Paulo (USP) e publicado na revista científica Communications Biology, ligada à Nature, sugere que a OPN4 pode ter participação no desenvolvimento e na progressão do melanoma, o tipo de câncer de pele mais agressivo que corresponde a 5% dos tumores malignos de pele e a 80% das mortes por câncer em geral.

Apesar de outros estudos demonstrarem que as opsinas (grupo de proteínas sensíveis à luz) podem atuar em cânceres, esta é a primeira constatação para o melanoma. Pesquisadores do Laboratório de Fisiologia Comparativa da Pigmentação do Departamento de Fisiologia do Instituto de Biociências (IB-USP), por meio de experimentos com animais e células geneticamente modificadas, identificaram que esse tipo de câncer avança mais lentamente quando a OPN4 não é funcional.

Os pesquisadores utilizaram a técnica de edição de DNA CRISPR para alterar a sequência do gene da OPN4, a fim de criar um modelo estável da célula de melanoma com uma versão não funcional da proteína, chamada de knockouts. Os pesquisadores perceberam que os knockouts apresentavam um fenótipo muito diferente em comparação a proteína funcional, eles cresciam menos e com capacidade reduzida de proliferação. Com isso, eles começaram a investigar se a OPN4 tinha papel na progressão do melanoma ou no processo de formação do câncer (a carcinogênese).

Após estudo em in vitro e sequencialmente em animais, foi confirmado que a células tumorais que continham a versão geneticamente modificada, ou seja, a proteína OPN4 não funcional, cresciam menos e de forma mais lenta do que as células com a proteína que não foi modificada. A descoberta foi confirmada por um técnica de análise de proteína (proteômica) e por meio de análise de banco de dados públicos.

Os resultados do estudo mostram que quando há a remoção da proteína OPN4, ocorre uma redução do crescimento celular. Segundo Leonardo Vinícius Monteiro de Assis, um dos autores do estudo, “Isso é causado basicamente por duas vias que não necessariamente são correlacionadas, mas podem ser: o aumento da ativação do sistema imunológico por um motivo ainda não caracterizado e uma redução bem significativa na sinalização de proteínas chamadas GTPases, que são como pequenos motores que atuam na progressão do ciclo celular e estão muito reduzidas nesses tumores.”

O estudo também revelou que um fator de transcrição muito importante no melanoma é menos expresso nas células com a versão não funcional da OPN4. Segundo Assis, junção destas informações sugere que a melanopsina atua como um oncogene no melanoma, ou seja, está associada ao aparecimento e crescimento desse tipo de câncer.

Contudo, mais experimentos com linhagens celulares de melanoma e outras abordagens ainda são necessários para confirmar definitivamente esse papel. A descoberta é importante, pois mostra que essas moléculas podem se tornar ferramentas terapêuticas promissoras no futuro.

Texto por Dalcio Neto| Ipedss Science

Fontes:

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