Semaglutida, tirzepatida e nova geração de medicamentos GLP-1 para tratamento da obesidade e doenças metabólicas.
Semaglutida, tirzepatida, retatrutida e novos GLP-1 estão transformando o tratamento da obesidade. Entenda o que mostram as evidências científicas atuais.

Durante décadas, o tratamento da obesidade esteve apoiado principalmente em mudanças no estilo de vida, intervenções nutricionais, atividade física, medicamentos com eficácia variável e, nos casos de maior gravidade, cirurgia bariátrica. Nos últimos anos, porém, uma nova geração de medicamentos passou a modificar profundamente esse cenário.

Nomes como semaglutida e tirzepatida deixaram o ambiente restrito da endocrinologia e passaram a ocupar consultórios, congressos científicos, redes sociais e buscas no Google. Por trás da popularidade das chamadas “canetas emagrecedoras”, entretanto, existe uma transformação científica muito maior.

Os agonistas do receptor de GLP-1 (glucagon-like peptide-1) inauguraram uma fase em que o tratamento farmacológico da obesidade pode interferir diretamente em mecanismos neuroendócrinos relacionados à fome, saciedade, ingestão alimentar e metabolismo.

A evolução também está acontecendo rapidamente. Depois dos agonistas isolados do GLP-1, surgiram moléculas com ação simultânea sobre diferentes receptores, como a tirzepatida, que atua em GIP e GLP-1. Agora, medicamentos experimentais procuram combinar três mecanismos hormonais, enquanto novas formulações orais tentam reduzir a dependência das aplicações injetáveis.

Em 2025, a própria Organização Mundial da Saúde publicou sua primeira diretriz global sobre o uso das terapias GLP-1 no tratamento da obesidade, reconhecendo a doença como crônica e recidivante e admitindo essas terapias como opção de tratamento de longo prazo em adultos, dentro de uma abordagem abrangente de cuidado.

Estamos, portanto, diante de uma mudança de paradigma.

Mas por que esses medicamentos provocam tanta perda de peso? Tirzepatida é realmente mais eficaz que semaglutida? O tratamento precisa continuar por toda a vida? Quais são os riscos? E o que vem depois dessas duas moléculas?

Antes de tudo: o que é GLP-1?

O GLP-1 é um hormônio peptídico produzido principalmente no intestino após a ingestão de alimentos. Ele participa da comunicação entre sistema gastrointestinal, pâncreas e cérebro.

Entre suas funções fisiológicas estão a estimulação da secreção de insulina quando a glicose está elevada, a redução da secreção de glucagon em determinadas condições, a modulação do esvaziamento gástrico e a influência sobre circuitos cerebrais envolvidos na fome e na saciedade.

Essa última característica tornou-se especialmente importante para o tratamento da obesidade.

Os agonistas do receptor de GLP-1 são moléculas desenvolvidas para reproduzir parte das ações desse hormônio, porém com modificações que permitem uma atividade farmacológica muito mais prolongada que a do GLP-1 produzido naturalmente pelo organismo.

O resultado pode incluir redução da ingestão calórica, aumento da saciedade, melhor controle glicêmico e perda significativa de peso.

É importante observar, entretanto, que os medicamentos dessa família não são todos iguais. Diferem em estrutura molecular, meia-vida, potência, dose, indicação, via de administração e receptores envolvidos.

É justamente nessa evolução farmacológica que se encontra uma das histórias mais importantes da medicina metabólica contemporânea.

Semaglutida: a molécula que ajudou a mudar o tratamento da obesidade

A semaglutida é um agonista do receptor de GLP-1 desenvolvido inicialmente no contexto do diabetes tipo 2. Posteriormente, estudos demonstraram que doses específicas também poderiam produzir perda de peso clinicamente relevante em pessoas com obesidade ou sobrepeso associado a determinadas comorbidades.

Um dos estudos que marcaram essa transformação foi o STEP 1, publicado no New England Journal of Medicine.

O ensaio clínico envolveu 1.961 adultos com sobrepeso ou obesidade sem diabetes. Os participantes receberam semaglutida 2,4 mg uma vez por semana ou placebo, ambos associados a intervenção no estilo de vida, durante 68 semanas.

A redução média do peso corporal foi de aproximadamente 14,9% no grupo tratado com semaglutida, comparada a 2,4% no grupo placebo.

Mais de 86% dos participantes tratados alcançaram redução de pelo menos 5% do peso corporal e aproximadamente metade atingiu redução igual ou superior a 15%.

Para a farmacoterapia da obesidade, esses resultados representaram um avanço expressivo.

Mas a história da semaglutida não terminou na balança.

Semaglutida e proteção cardiovascular: um ponto de virada

O estudo SELECT ampliou de maneira importante a discussão sobre o medicamento.

Foram estudados mais de 17 mil adultos com sobrepeso ou obesidade e doença cardiovascular estabelecida, mas sem diabetes. O tratamento com semaglutida 2,4 mg esteve associado a uma redução de aproximadamente 20% no risco do desfecho cardiovascular composto de morte cardiovascular, infarto não fatal ou acidente vascular cerebral não fatal, quando comparado ao placebo.

Esse resultado modificou a maneira como a farmacoterapia da obesidade passou a ser interpretada.

A pergunta deixou de ser apenas “quanto peso o medicamento consegue reduzir?” e passou a incluir outra questão muito mais importante: o tratamento consegue reduzir complicações clínicas relevantes?

Análises posteriores do SELECT também encontraram sinais favoráveis em desfechos renais. Em uma análise pré-especificada, o desfecho renal composto ocorreu em 1,8% dos participantes tratados com semaglutida e 2,2% daqueles que receberam placebo.

Em 2026, a Anvisa ampliou no Brasil a indicação do Wegovy para redução do risco de eventos cardiovasculares adversos maiores em determinados adultos com doença cardiovascular estabelecida e obesidade ou sobrepeso.

Isso demonstra uma mudança conceitual fundamental: a redução do peso passa a ser considerada dentro de uma estratégia mais ampla de redução de risco cardiometabólico.

Tirzepatida: quando o tratamento deixa de atuar somente no GLP-1

Se a semaglutida consolidou o potencial dos agonistas de GLP-1 no tratamento da obesidade, a tirzepatida introduziu uma nova lógica farmacológica.

A molécula é um agonista duplo dos receptores de GIP e GLP-1.

O GIP, ou polipeptídeo insulinotrópico dependente de glicose, é outro hormônio intestinal envolvido na resposta metabólica à alimentação.

A possibilidade de atuar simultaneamente sobre duas vias hormonais levou pesquisadores a investigar se seria possível ampliar os efeitos metabólicos e a redução de peso obtidos com agonistas isolados de GLP-1.

Os resultados dos estudos SURMOUNT colocaram essa hipótese em evidência.

Em diferentes populações e doses, a tirzepatida demonstrou reduções substanciais do peso corporal, chegando a patamares que anteriormente eram difíceis de observar com medicamentos para obesidade.

Mas durante algum tempo permaneceu uma pergunta importante: como tirzepatida e semaglutida se comportariam em uma comparação direta?

Essa resposta começou a ficar mais clara em 2025.

Tirzepatida versus semaglutida: o que mostrou a comparação direta?

O estudo SURMOUNT-5, publicado em 2025 no New England Journal of Medicine, comparou diretamente as duas terapias.

Participaram adultos com obesidade, mas sem diabetes tipo 2. Os pacientes receberam a dose máxima tolerada de tirzepatida 10 ou 15 mg ou semaglutida 1,7 ou 2,4 mg semanalmente durante 72 semanas.

O resultado mostrou que a tirzepatida foi superior à semaglutida na redução do peso corporal e da circunferência abdominal.

Essa comparação é particularmente relevante porque estudos realizados separadamente não devem ser interpretados como se fossem comparações diretas. Diferenças de população, desenho experimental, duração e metodologia podem influenciar os resultados.

O SURMOUNT-5 reduziu parte dessa incerteza ao colocar os dois medicamentos no mesmo ensaio clínico.

Ainda assim, “qual medicamento emagrece mais?” não deve ser a única pergunta utilizada para definir uma terapia.

Perfil clínico, presença de diabetes, doença cardiovascular ou renal, tolerabilidade, contraindicações, disponibilidade, custo, histórico terapêutico e objetivos individuais também precisam ser considerados.

GLP-1 não significa apenas emagrecimento

Talvez uma das maiores mudanças científicas dos últimos anos seja justamente a expansão das pesquisas para além do peso corporal.

Semaglutida, tirzepatida e outras moléculas relacionadas às vias incretínicas estão sendo estudadas ou utilizadas em diferentes contextos cardiometabólicos.

O interesse inclui diabetes tipo 2, risco cardiovascular, doença renal, insuficiência cardíaca associada à obesidade, doença hepática metabólica e apneia obstrutiva do sono.

Nos Estados Unidos, por exemplo, a FDA aprovou a tirzepatida para tratamento da apneia obstrutiva do sono moderada a grave em adultos com obesidade, associada à dieta com redução calórica e aumento da atividade física.

A decisão foi baseada em estudos randomizados nos quais o tratamento reduziu significativamente o índice de apneia-hipopneia em comparação ao placebo.

Esses avanços reforçam uma interpretação moderna da obesidade: ela não é simplesmente uma alteração estética ou resultado isolado de comportamento alimentar.

Trata-se de uma doença crônica complexa relacionada a alterações neuroendócrinas, metabólicas e ambientais e associada ao desenvolvimento ou agravamento de diversas condições.

E o coração? A relação entre obesidade, GLP-1 e risco cardiovascular

A importância cardiovascular dessas terapias também aparece nas diretrizes.

A Diretriz Brasileira Baseada em Evidências de 2025 para o Manejo da Obesidade e Prevenção de Doenças Cardiovasculares e Complicações Associadas à Obesidade, elaborada por cinco sociedades médicas, incorporou semaglutida e tirzepatida em recomendações específicas relacionadas à obesidade e a determinadas condições cardiovasculares.

Em pacientes com obesidade e insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada, por exemplo, a diretriz recomenda semaglutida 2,4 mg/semana ou tirzepatida em doses apropriadas para redução de peso e melhora de sintomas e qualidade de vida.

Isso ilustra como a farmacoterapia da obesidade está migrando de um objetivo exclusivamente antropométrico para uma abordagem cardiovascular-reno-metabólica.

O sucesso de um tratamento não pode ser medido somente pelo número de quilos eliminados.

Pressão arterial, controle glicêmico, perfil lipídico, capacidade funcional, qualidade de vida, risco cardiovascular e outras complicações precisam entrar na equação.

O que acontece quando o paciente interrompe o tratamento?

Essa é uma das questões mais importantes e uma das mais pesquisadas no Google.

Os estudos disponíveis indicam que uma parcela considerável do peso perdido pode retornar após a interrupção do tratamento.

Na extensão do estudo STEP 1, participantes que haviam utilizado semaglutida recuperaram aproximadamente dois terços do peso anteriormente perdido no período de um ano após a retirada da terapia.

O fenômeno também foi observado com tirzepatida.

No estudo SURMOUNT-4, os participantes receberam inicialmente tirzepatida durante 36 semanas e apresentaram redução média de 20,9% do peso.

Depois disso, uma parte continuou utilizando o medicamento e outra foi transferida para placebo.

Entre aqueles que interromperam a tirzepatida e passaram a receber placebo, ocorreu recuperação substancial de peso. Já os participantes que continuaram o tratamento apresentaram redução adicional.

Esses resultados ajudam a combater uma interpretação equivocada de que medicamentos contra a obesidade deveriam necessariamente ser utilizados apenas por alguns meses até que determinado peso fosse atingido.

A obesidade é uma doença crônica e recidivante. Assim como acontece em hipertensão, diabetes e dislipidemia, algumas pessoas podem necessitar de tratamento prolongado.

Isso não significa que todo paciente utilizará a mesma medicação indefinidamente. Significa que a decisão de suspender, reduzir, substituir ou manter o tratamento deve ser individualizada e acompanhada por profissional habilitado.

A próxima geração: retatrutida e os agonistas triplos

Se semaglutida atua principalmente no receptor de GLP-1 e tirzepatida combina GIP e GLP-1, a próxima fronteira busca integrar uma terceira via hormonal.

A retatrutida é um agonista experimental dos receptores de GIP, GLP-1 e glucagon.

O conceito é particularmente interessante porque combina mecanismos relacionados à saciedade, controle glicêmico e gasto energético.

Em um estudo de fase 2 publicado no New England Journal of Medicine, 338 adultos com obesidade ou sobrepeso associado a uma condição relacionada ao peso receberam diferentes doses de retatrutida ou placebo.

Na dose de 12 mg, a redução média do peso corporal chegou a aproximadamente 24,2% após 48 semanas, comparada a 2,1% com placebo.

No grupo de 12 mg, 83% dos participantes alcançaram perda de pelo menos 15% do peso.

Os resultados chamaram grande atenção justamente porque se aproximam de magnitudes de perda ponderal que historicamente estavam mais associadas a procedimentos bariátricos do que à farmacoterapia.

Entretanto, existe uma distinção fundamental: retatrutida permanece uma terapia em investigação. Resultados de fase 2, por mais promissores que sejam, não substituem a necessidade de estudos maiores de fase 3, avaliação de segurança e análise regulatória.

A nova geração de GLP-1 não deve ser tratada como disponível antes que essas etapas sejam concluídas.

Outra revolução pode acontecer fora das canetas

A evolução da área não está limitada ao desenvolvimento de moléculas cada vez mais potentes.

Existe também uma corrida para tornar os tratamentos mais simples.

Um dos caminhos é a administração oral.

A semaglutida já possui experiência de formulação oral no diabetes, mas formulações e doses voltadas especificamente ao controle do peso vêm ampliando essa discussão.

Outra estratégia é ainda mais diferente: desenvolver moléculas pequenas, não peptídicas, capazes de ativar o receptor de GLP-1 e serem administradas como comprimidos.

É nesse cenário que aparece o orforglipron.

Orforglipron: GLP-1 oral sem ser um peptídeo

O orforglipron é um agonista oral de pequena molécula e não peptídico do receptor de GLP-1.

Em 2025, o estudo de fase 3 ATTAIN-1, publicado no New England Journal of Medicine, avaliou 3.127 adultos com obesidade sem diabetes.

Depois de 72 semanas, a dose de 36 mg esteve associada a uma redução média de 11,2% do peso corporal, comparada a 2,1% com placebo.

Mais da metade dos participantes nessa dose perdeu pelo menos 10% do peso; 36% perderam 15% ou mais; e 18,4% atingiram redução de pelo menos 20%.

O estudo também encontrou melhorias em circunferência abdominal, pressão arterial sistólica, triglicerídeos e colesterol não HDL.

Os eventos adversos mais frequentes foram gastrointestinais e, em sua maioria, leves a moderados.

A importância científica do orforglipron não está somente na magnitude da perda de peso.

Uma molécula oral não peptídica pode, potencialmente, simplificar fabricação, armazenamento, distribuição e administração em comparação com determinadas terapias peptídicas injetáveis.

Se essas vantagens se traduzirão em maior acesso populacional dependerá, entretanto, de aprovação regulatória, preço, capacidade produtiva e políticas de saúde.

E a semaglutida oral para obesidade?

Outro caminho é transformar o próprio tratamento baseado em semaglutida em uma alternativa oral voltada especificamente à obesidade.

Em 2026, novos dados do programa OASIS 4 sobre semaglutida oral 25 mg reforçaram o potencial dessa estratégia.

Isso aponta para um futuro no qual o tratamento da obesidade poderá oferecer diferentes formatos: aplicações semanais, comprimidos diários, agonistas simples, duplos e triplos e, possivelmente, combinações farmacológicas desenhadas para diferentes fenótipos metabólicos.

A questão deixará progressivamente de ser “qual é a melhor caneta?” e poderá se tornar “qual mecanismo é mais adequado para este paciente?”

Essa é uma mudança característica da medicina de precisão.

Mais potência significa necessariamente melhor tratamento?

Não.

Essa distinção é fundamental.

A porcentagem média de perda de peso observada em um ensaio clínico não determina isoladamente qual medicamento é melhor para uma pessoa específica.

Quanto maior a potência metabólica de uma terapia, maior também deve ser a atenção à tolerabilidade, composição corporal, estado nutricional, interações medicamentosas e possíveis eventos adversos.

Os efeitos gastrointestinais estão entre os eventos adversos mais frequentes dessa classe e incluem náuseas, vômitos, diarreia e constipação.

Também existem situações clínicas que exigem precauções específicas e acompanhamento médico.

Além disso, uma redução rápida e significativa de peso não corresponde exclusivamente à perda de gordura.

A preservação da massa muscular tornou-se um tema cada vez mais importante no acompanhamento de pacientes submetidos a terapias de alta potência para obesidade.

Ingestão adequada de proteínas, atividade física especialmente exercícios de resistência e acompanhamento nutricional são componentes importantes da estratégia terapêutica.

A meta moderna não deveria ser simplesmente “pesar menos”.

O objetivo é melhorar saúde metabólica, funcionalidade e qualidade de vida preservando o máximo possível de massa magra e reduzindo o excesso de tecido adiposo.

O problema do uso sem acompanhamento médico

A popularização das chamadas canetas emagrecedoras trouxe outro fenômeno: automedicação, compartilhamento de medicamentos, produtos falsificados e utilização de substâncias sem procedência adequada.

Esse cenário preocupa autoridades sanitárias internacionais.

A Organização Mundial da Saúde alerta que a enorme demanda por terapias GLP-1 favoreceu a circulação de produtos falsificados ou de qualidade inadequada.

No Brasil, medicamentos devem ser utilizados de acordo com suas indicações aprovadas e sob acompanhamento profissional.

Isso é especialmente relevante porque obesidade não é uma doença homogênea.

Dois indivíduos com o mesmo IMC podem apresentar riscos completamente diferentes. Um pode ter diabetes e doença cardiovascular; outro pode apresentar transtorno alimentar; outro pode ter sarcopenia; outro pode utilizar medicamentos que interferem no peso.

Transformar uma terapia complexa em uma simples “caneta para emagrecer” reduz uma intervenção médica a uma narrativa comercial.

A obesidade está sendo redefinida pela ciência

Talvez essa seja a transformação mais importante provocada pela era GLP-1.

Durante décadas, a obesidade foi frequentemente interpretada a partir de uma lógica excessivamente simplificada: consumir menos calorias e gastar mais energia.

O balanço energético continua sendo biologicamente fundamental, mas a regulação do peso envolve mecanismos muito mais complexos.

O cérebro responde à perda de peso aumentando sinais de fome. Hormônios relacionados à saciedade e ao apetite se modificam. O gasto energético pode diminuir. Predisposição genética, ambiente alimentar, sono, saúde mental, medicamentos, condições socioeconômicas e doenças associadas também influenciam o processo.

Por isso, manter uma grande redução de peso somente por mudanças comportamentais pode ser biologicamente difícil para muitas pessoas.

As terapias incretínicas não eliminam a importância da alimentação saudável e da atividade física. Elas acrescentam uma ferramenta farmacológica capaz de atuar sobre alguns dos mecanismos biológicos que dificultam o controle do peso.

Essa interpretação está alinhada à diretriz publicada pela Organização Mundial da Saúde em 2025.

A OMS reconheceu a obesidade como uma doença crônica e recidivante e recomendou condicionalmente terapias GLP-1 para tratamento prolongado em adultos elegíveis, associadas a uma abordagem abrangente que inclua alimentação saudável, atividade física e acompanhamento profissional.

Semaglutida, tirzepatida ou a próxima geração?

A resposta dependerá cada vez menos de uma competição entre medicamentos.

A semaglutida possui evidências robustas de redução de peso e, em populações específicas, redução de eventos cardiovasculares. A tirzepatida demonstrou maior redução média de peso que a semaglutida em comparação direta e vem acumulando evidências em outras complicações relacionadas à obesidade.

A retatrutida representa uma das estratégias experimentais mais interessantes da geração seguinte ao combinar GIP, GLP-1 e glucagon.

O orforglipron demonstra que também é possível buscar ativação farmacológica do receptor GLP-1 por meio de uma pequena molécula oral não peptídica.

Ao mesmo tempo, novas formulações de semaglutida oral procuram levar a potência das terapias incretínicas para fora das aplicações injetáveis.

O futuro provavelmente não será dominado por uma única molécula.

A tendência é a construção de um arsenal terapêutico cada vez mais diversificado, permitindo selecionar estratégias de acordo com obesidade, diabetes, risco cardiovascular, doença renal, doença hepática, insuficiência cardíaca, apneia do sono, tolerabilidade, preferência do paciente e resposta individual.

O que a ciência já permite concluir?

A revolução provocada pelos agonistas de GLP-1 é real, mas precisa ser interpretada com equilíbrio.

Semaglutida e tirzepatida modificaram o padrão de eficácia esperado de medicamentos para obesidade. Estudos cardiovasculares demonstraram que pelo menos algumas dessas terapias podem produzir benefícios clínicos que ultrapassam a redução do número na balança.

Ao mesmo tempo, estudos de retirada mostram que o reganho de peso é frequente após a interrupção, reforçando o caráter crônico da obesidade.

A próxima geração promete ampliar ainda mais esse cenário por meio de agonistas duplos, triplos e medicamentos orais.

Mas inovação não elimina a necessidade de evidência.

Cada nova molécula precisa demonstrar não apenas capacidade de reduzir peso, mas segurança, tolerabilidade, manutenção de resultados e, idealmente, benefícios sobre desfechos clínicos relevantes.

A verdadeira revolução dos GLP-1, portanto, talvez não esteja simplesmente no fato de existirem medicamentos capazes de produzir perdas de peso expressivas.

Ela está na mudança da própria maneira como a medicina compreende e trata a obesidade: de uma condição frequentemente atribuída apenas ao comportamento individual para uma doença crônica, complexa e biologicamente regulada, que pode exigir acompanhamento e tratamento de longo prazo.

Essa transformação está apenas começando.

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