O vírus chikungunya (CHIKV) foi identificado pela primeira vez na Tanzânia em 1952, ainda de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), desde 2005 quase 2 milhões de casos foram informados na Índia, na Indonésia, nas Maldivas, em Mianmar e na Tailândia. Houve epidemias da doença na ilha francesa de Reunião, a leste de Madagascar, em 2006, e no norte da Itália, em 2007.
A doença é transmitida pelos mosquitos Aedes aegypti (é o principal mosquito transmissor da chikungunya no Brasil) e Aedes albopictus. Chikungunya significa "aqueles que se dobram" em swahili, um dos idiomas da Tanzânia. Refere-se à aparência curvada dos pacientes que foram atendidos na primeira epidemia documentada, na Tanzânia, localizada no leste da África, entre 1952 e 1953. Surgindo nas Américas em 2013, já no Brasil o vírus começou a circular em meados do ano de 2014, por métodos laboratoriais, a presença da doença nos estados do Amapá e Bahia.

No último boletim epidemiológico, publicado pelo Ministério da Saúde, os casos de chikungunya aumentaram 31% no Brasil na comparação entre 2020 e 2021. Até o dia 4 de dezembro deste ano, foram registrados 93,4 mil casos prováveis da doença. Quando se compara às outras duas enfermidades que também dependem da ação do mesmo mosquito tiveram uma queda: o número de pacientes com dengue caiu 45,7%, enquanto o de zika se reduziu em 15,4% no mesmo período analisado.

Dentre as regiões brasileiras acometidas pela doença, a mais atingida atualmente é a região Nordeste, com uma incidência de 111,7 casos a cada 100 mil habitantes. Mas chama a atenção também o aumento de afetados em outras partes do país, como o Sudeste, que reportou 29,1 casos por 100 mil indivíduos.
"Os vírus transmitidos pelo Aedes têm uma característica sazonal, e há um aumento na frequência de casos no período das chuvas e do calor, que costuma propiciar um ambiente favorável à proliferação desses mosquitos", explica a médica Melissa Falcão, da Sociedade Brasileira de Infectologia. "Esperamos, portanto, um aumento de casos de chikungunya para os próximos meses", completa.

Uma das maiores preocupações em relação a chikungunya é a sua longa duração em relação a sintomas, tanto que os médicos costumam fazer uma divisão da doença em três fases, a primeira é a aguda, que dura até dez dias e costuma ser marcada por febre, fadiga e dores no corpo. Na sequência, vem a fase subaguda, que se estende por até três meses. Nela, a febre deixa de ser uma preocupação, mas as dores podem se intensificar e atingir principalmente as articulações das mãos, dos pés, dos tornozelos e dos joelhos. Por fim, mais da metade dos acometidos progride para a fase crônica, que também é marcada pelos incômodos nas juntas do corpo.
"Pesquisas feitas na Índia, que também apresenta muitos casos de chikungunya, mostram que essa fase crônica pode persistir em alguns pacientes por até cinco anos", calcula o virologista Rômulo Neris, doutor em imunologia e pesquisador da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). E isso, claro, representa um tormento para os próprios indivíduos e para todo o sistema de saúde.
"Durante os surtos, o impacto da chikungunya é muito grande. As unidades ficam superlotadas, com aumento da demanda de atendimento em mais de 100% nas unidades de pronto-atendimento", relata Falcão. "E uma epidemia de chikungunya agora pode ter impactos ainda mais negativos, pois estamos com os profissionais de saúde saturados pelo trabalho extenuante da pandemia de Covid-19", acrescenta.
E, apesar de a enfermidade ser conhecida há algumas décadas, ainda não se conhecem todos os mecanismos por trás de tanta dor, meses ou até anos após a invasão viral. "Em alguns indivíduos, até encontramos uma infecção residual no tecido que envolve as articulações. Em outros, não observamos mais nenhum vírus", conta Neris. "É possível que esse quadro tenha algo a ver com a resposta do sistema imunológico do paciente, que acaba ficando desregulado e prejudica o próprio corpo", especula o especialista.
"Os casos de chikungunya vêm aumentando em regiões que foram poupadas anteriormente, como o Estado de São Paulo, que enfrenta desde o início de 2021 a primeira transmissão mais importante dessa doença", aponta. Falcão observa que, em terras paulistas, a região da Baixada Santista acumula cerca de 97% dos casos registrados e que isso evidencia "um potencial de disseminação da doença para as demais regiões". Neris acrescenta outros possíveis fatores que ajudam a entender o atual cenário.
"Precisamos considerar também a grande distribuição dos mosquitos Aedes pelas cidades brasileiras e um possível aumento na capacidade de testagem e diagnóstico dessa doença nos últimos anos", lista o virologista. "Além disso, também precisamos de novos estudos para verificar se o vírus da chikungunya não passou por mutações ou adquiriu uma capacidade de se transmitir mais facilmente. Essa possibilidade por enquanto não passa de especulação, mas ela também precisa ser averiguada", complementa.
Na visão dos especialistas, existem ao menos quatro grandes eixos estratégicos que podem ser reforçados para conter os casos de chikungunya nos próximos meses. Sendo elas os Governos Federais e estaduais, a ciência e por último a população, ou seja, se faz necessário a união de todas essas esferas para que ocorra um melhor controle e cuidado com essa doença.
Texto por Paula Eduarda Rocha | Ipedss Science
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